Há 16 anos, o historiador inglês Eric Hobsbawn escreveu Era dos Extremos, o breve século XX (1914-1991), publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Marcos Santarrita. Para o autor, o século passado fora mais breve que outros porque havia começado de fato com a Primeira Guerra Mundial, em 1914 (com o assassinato em 28 de junho do arquiduque da Áustria-Hungria, Francisco Ferdinando, em Sarajevo) e terminado em 1991, com a dissolução da União Soviética. Um século de 77 anos relevantes, portanto. Logo no início do livro, Hobsbawn adverte para o fato de que "a destruição do passado... é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX" já que "os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem". Os historiadores são tão importantes, conclui ele, porque seu ofício é lembrar o que outros esquecem.
Em abril deste ano, o Caderno Mais, da Folha de São Paulo, publicou uma tradução - de Clara Allain- da entrevista de Hobsbawn à edição de janeiro/fevereiro da revista britância New Left Review. Perguntado sobre quais as mudanças importantes no mundo desde 1991, ele lista quatro mudanças principais:
1- O deslocamento do centro econômico do mundo do Atlântico Norte para o sul e o leste da Ásia;
2- A crise mundial do capitalismo;
3- A derrota retumbante da tentativa dos Estados Unidos de exercer a hegemonia global sozinho a partir de 2001;
4- A emergência de um novo bloco de países em desenvolvimento, como entidade política: os Brics - Brasil, Rússia, Índia e China.
Ele acrescenta ainda um quinto elemento: a erosão e o enfraquecimento sistemático da autoridade dos Estados.
Ao analisar o que a New Left Review chama de "recomposição política daquilo que foi no passado a classe trabalhadora", Hobsbawn novamente faz uma didática lista de três mudanças negativas importantes:
- A xenofobia, que para August Bebel seria "o socialismo dos tolos";
- Boa parte da mão de obra e do trabalho nos setores qualificados no passado como "graus menores e manipulativos" não é mais permanente, mas temporária. Segundo o historiador, não é fácil enxergar tal mão de obra com potencial para ser organizada.
Mas o que nos parece especialmente interessante nas observações de Hobsbawn está no que ele diz a seguir.
-A terceira e mais importante mudança seria a divisão crescente gerada por um novo critério de classe: a aprovação em exames de escolas e universidades como critério de acesso a empregos. Para Hobsbawn esta suposta meritocracia, medida, institucionalizada e mediada por sistemas de ensino fez desviar a consciência de classe da oposição aos patrões para a oposição a representantes de alguma elite: intelectuais, elites liberais, pessoas que "se erguem como superiores a nós".
Segundo a revista Mais (que deixou de circular este ano) a íntegra da entrevista de Eric Hobsbawn pode ser lida em: www.folha.com.br/101031.
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