Com diploma ou sem, resenha há de ser texto para jornalista. Nem sempre é, mas deveria. Neste caso, a resenha é sobre a biografia de um jornalista escrita por outro. Biografado: Antônio Maria. Ele era radialista; locutor esportivo; jornalista; criador de programas de rádio, musicais, homorísticos, outros; apresentador, compositor de canções como: "Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor" e boêmio, do Centro, da Lapa e de Copacabana. Quem escreveu o livro foi Joaquim Ferreira dos Santos. A obra é da coleção Perfis do Rio, da Rio Arte, da Prefeitura com a editora Relume Dumará. O exemplar aqui mencionado é da edição de 1996. A ilustração é de uma esquina da Lapa e não retrata Antônio Maria. Mas ele caberia ali. Na bibliografia, há três livros creditados a ele: O jornal de Antônio Maria; Pernoite; Com Vocês. Como explica Joaquim Ferreira dos Santos, Maria preferiu viver as histórias em vez de inventá-las ou mesmo de se por a contá-las em livro. Morreu cedo o Maria. Numa versão mais madura dos românticos, enfartou aos 43 anos. Viveu de 1921 a 1964. Ao que parece, o verbo é bem adequado. Viveu intensamente. Seduziu, namorou, conquistou, amou. O biógrafo conta que o pernambucano Maria fazia-se de carente para atrair seus amores. Citava o Exupéry de O Pequeno Príncipe, lançado em sua época. Chegou a ser marido de Danuza Leão, antes, e depois dele, casada com Samuel Wainer. Integrante da primeira geração que habitou a zona sul, é dele o que está no livro sobre a primeira metade da década de 1950 da Princesinha do Mar (ou como prefere Joaquim Ferreira: "diferente do clichê da Princesinha do Mar"):
"Na calçada preta e branca da praia, um vai-e-vem de príncipes, ladrões, banqueiros, pederastas, estrangeiros que puxam cachorros, mulheres de vida fácil ou difícil, vendedores de pipocas, milionários, cocainômanos, diplomatas, lésbicas, bancários, poetas, políticos, assassinos e book-makers. Da guarita do Forte do Leme à guarita do Forte de Copacabana, de sentinela a sentinela, são 121 postes de iluminação, formando o 'colar de pérolas' tantas vezes invocado em sambas e marchinhas. Cada edifício tem uma média de 50 janelas, por trás das quais se escondem, estatisticamente, três casos de adultério, cinco de amor avulso e solteiro, seis de casal sem bênção e dois entre cônjuges que se uniram, legalmente, no padre e no juiz. Por trás das 34 janelas restantes, não acontece nada, mas muita coisa está por acontecer. É só continuar comprando os jornais e esperar."
O livro tem isto e muito mais. É muito bom. Vale a pena!
Num fim de semana de julho de 2009, o calçadão permanece. Há agora outros 50 postes do Forte do Leme ao Forte de Copacabana cravados na areia, juntos ao calçadão. Cada um sustenta 9 refletores para iluminar as noites da Princesinha do Mar. Distam 100 passos um do outro. Em cada vão, há dois ou três quiosques padronizados onde se pode beber água de coco, refrigerante, cerveja e comer peixe frito, batata frita, espetinhos ou camarão com arroz. Há também carrocinhas de pipoca, de churros, de tapioca. Mais de meio século depois, do preto e branco ondulado da calçada internacional, pode-se ver, nos mesmos limites dos postes de outrora: frescobol com rede; rúgbi; futebol de areia; futevôlei e volley ball; toalhas, camisas e cangas com a bandeira do Brasil à venda; esculturas de areia em série com potes de moedas vigiados por pseudo escultores sonolentos e/ou embriagados; pseudo-sambistas tocando choro e empurrando o pandeiro na mesa ou nos turistas, fazendo do pandeiro sacolinha de moedas, que mais pedem do que tocam; vendedores ambulantes de bugigangas; skatistas, patinadores, ciclistas e cachorros de luxuosas coleiras cruzando; aqui um grupo fantasiado de índio entoa supostas canções indígenas, ali um ancião toca harpa ao lado da irmã ou da esposa; noutro trecho da Av. Atlântica interditada, um malabarista vestido de jogador de futebol faz embaixadinhas com bola de gude, laranja, coco e tudo o que houver de mais ou menos redondo, desde que se lhe ponham moedas ou notas também numa sacolinha. Copacabana, num final de tarde de sábado ou domingo, mais parece um grande mercado onde se vende a vista, a foto, mercadorias e música de entretenimento. Venta frio, venta muito. Faz 20 graus. E o mar ali perto parece longe pois nem bem chama mais a atenção. Como será que descreveria isto o Antônio Maria hoje, senhor Joaquim Ferreira?
EM TEMPO: Como consta no painel, da esquerda para a direita estão retratados:
João do Rio - Rainha (do rádio?) - Villa Lobos - Noel Rosa - Manuel Bandeira - Madame Satã - Portinari - Di Cavalcanti.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Diga: